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o oceano nas pessoas

as aves marinhas
arrastaram
suas pernas sobre
as águas
e sopraram um vento
manso, mas encharcado
do perigo da noite,
correram secretas
e prontas
por entre ladeiras,
desabaram silenciosas
ante a face
minguante do risco
da lua
e se estenderam quilômetro
a quilômetro
da mata transamazônica
dos seus pêlos
morenos,
mas queimados
pelo sol do meio-dia,
lambido de sal
e trêmulo,
espantado com
o fantasma
das coisas que perecem,
uma tímida estrela
do mar
sentimental
desfilando suas tripas
sob a praia.

coisas que brilham

eu vi quando você virou
estrela
e seus cabelos tremeluziram
gaivotas de luzes verdes
que iluminaram seus olhos
como duas luas
cheias
com o pó prateado
das coisas que orbitamentre suas coxas como
uma cascata
de pequenos vagalumes,
eu vi. eu vi quando
você tocou a atmosfera
e suas mãos se estenderam
como faróis
daqueles capazes de guiar
um homem
eu vi quando você se partiu
para renascer coroada
de luz
num outro plano espacial
detentora do tesouro dos reis
astros maiores
atraidos pela grandiosidade
da sua luzentão você se foi no oceano
da noite
uma sereia espacial
iluminando o mundo.

não pise nas flores

não pise nas
flores
mesmo
que as vezes
ela te peça,
nem feche
a janela
em dia
de chuva
nem sufoque
um gemido
na boca
da paixão
não use grilhões
nem ofereça
não se perca
do brilho
das estrelas
enquanto
caminha os passos
do mistério,não se curve
demais
para que não
se dobre
nem estufe
não se perca
no macio
irregular
das ondas
nem no canto
agudo
da sereia
sob a pedra
ou das aves marinhas,
ou das conchas
tímidas
fechadas
em si mesmas
oferecendo
suas pérolas
e suas tripas
amorosas
ao sol
e ao deus
errante
dos marinheiros.

o risco de chover

eu corro o risco de cobrir
suas palmas com as cores
dos desertos,
de projetar nas suas palavras
um raio laser sem qualquer 
efeito léxico, sem semântica,
forma ou estrutura anatômica,
apenas um apanhado dos fiapos
do tempo displicentemente
emaranhados no canto oposto
da sala de estar,
corro o risco de provar do copo
de luz sob a mesa e de acender
mais uma vez as luminárias
do jardim,
corro o risco de te imaginar
mais uma vez aguando as plantas,
espalhando teu cheiro pelos hortelãs
e os morangos silvestres,
corro o risco de correr perigo
e te amar outra vez.

a falta

pequenas flâmulas anunciam
o túmulos dos anjos
em pleno cerco,
verdadeiro estado de sítio,
uma completa febre noturna
em que você se deita
oferecendo seu pescoço
aos cães,
despindo suas cascas
enquanto alterna suas muitas
caras tristes,
aquela que costumava
mostra nos dias de verão
em que tudo é calor
e a terrível anedota sobre
as alças do espelho
e conta com o doce jasmim
da sua boca
como você me deseja
quando o sol baixa
e se estende sobre mim
como um mapa
e eu te conto com a boca
escancarada
sobre o terror pegajoso​
da morte e da falta
do jasmim
quando você não vem.

as coisas do amor

antes que o sol morra
falemos das coisas do amor,
falemos da forma como você
se move sobre a espuma,
da forma como você me chega
e me invade e finca sua bandeira
tímida ao mastro,
falemos sobre as tuas curvas
ou a forma como você sorri um
sorriso branco, limpo, transpassado
pelas histórias de um outro tempo,
falemos sobre as aves de rapina
e o sal da sua pele,
falemos sobre a lamparina dos
teus olhos e a maneira como
você ilumina,antes que a terra trema
falemos das tuas vitórias
no campo de batalha,
sagrado vênus,
falemos da semente
e de como você sussurra
canções às flores, de como
você se estende pelo céu
em cores, falemos sobre
o arco das tuas sombrancelhas
contra a geometria do teu peito,
falemos das mãos em concha
e da pureza dos rios,
falemos dos teus cabelos,
das tuas rugas, do peso
das tuas costas
falemos, sobre tudo das
coisas do amor.

interdição aos vagalumes

cintilam dois pequeno vagalumes
por de trás das suas pálpebras fechadas
em algum ritual sagrado para a catarse absoluta ou você apenas cerra os olhos
na esperança de tocar por alguns minutos
o centro do mundo, o umbigo de deus:
todas as coisas, até as coisas que
penduramos esperando o sol de amanhã,
até as cinzas dos cigarros e a chama,
o pavio, a bomba e o estilhaço,
talvez você até pressinta minha ânsia,
pois sempre que te toco e toco consciente
do ato sublime das mãos você se move
e se afasta e se recolhe e cerra as pálpebras descansando os vagalumes em alguma
floresta inabitada, onde talvez habitem feras perigosas e seres fantásticos de pura luz,
talvez você até tenha aprendido algum
segredo com as folhas do carvalho,
talvez você tenha desenvolvido o mistério
dos rios e seja você mesma feita d'agua,
uma antiqüíssima força que só se toca
com a ponta dos dedos, algo parecido com magia, uma espécie nova de amar e perecer.