Postagens

Mostrando postagens de 2016

poema do amor nascente

Eu poderia cantar-lhe
sobre o amor
pois é belo
e terrível
poderia contar-lhe
o terror escuro dos homens
das mães
dos enamorados
porém
assim como a noite
do breu
faz-se a luzEu poderia contar-lhe
das faltas
dos planos
dos enganos
gravíssimos
dos enamorados
em vão
das falhas do amor
do breu
naqueles corações
incontáveis
incontroláveis
onde
sempre existirá
mais luz
que
escuridão Eu poderia calar-te
entãocom: Júlio Carvalho

Cântico, Prece & Oração

O que dizer
aos homens esculpidos
em mármore negro,
fogo, fumaça e servidão?O que contar
aos filhos dos filhos
de anjos esbeltos
há muito esquecidos
de suas divindades?O que oferecer a estás criaturas
entre criaturas
se não o canto noturno e terrível
das coisas pequenas.
O estender de braços ao acaso
acenando em oração para que se frutifiquemO que entregar me é permitido
quando o poço está seco
e só pousa em meus lábios
palavras de vaidade, vigília e permanência?O que sacrificar, quando do chão
não brota flor?

Elegias Marítimas - Voz & Poesia

Manifesto à juventude

Para onde foram
os anos de minha juventude?
Transportaram-se à marte?
Bomboleiam saturno?
Mergulharam o oceano nebuloso
todo-poderoso-amem?
Escorreram pelas quinas?
Espreitaram trincheiras fundas
bradando: mata-ou-morre.
dobraram-se sobre si mesmos
como origamis kamikazes
ensaiando o vôo e a queda?Quem dirá do tempo
ás tuas longas histórias?
Faixas brancas na areia estelar,
retratos singulares de janelas
suspensas no todo cosmos.
A quem interessa ás pegadas
do moço astronauta desbravador
de distâncias, linhas e rugas?
Do semblante vil
e paradoxal do artista?
Da altura inabalável das montanhas?Para onde escaparam
os dias brandos?
Refletem-se no grisalho
das mães-paraíso-eterno?
Engalfinham-se aos pares?
guerreiam entre si
o tempo e a memória?
Por quais bandeiras?
Brancas? Negras?
E o amor, os afagos?
Operam sobre quais tratados?

Carícias, transgressões & nudez

Observo
fascinado
teus
movimentos
sutis
no entre abrir
das pernas,
exatas
e angulares
como
o restante
do teu corpo
de sonho,
sinuoso
e intrépido
feito
curva
de rio.O zíper
e o volume
marítimo
do mastro
suntuoso
que me
oferece,
transgressor
na semi-escuridão
dos becos
marginais
dessa cidade
distante
e sonolenta,
repousando
insegura
sob cobertores
cristãos
perpetuadores
da moral.Convido
aquele Adônis
incandescente,
super-nova
aos mistrais
do corpo anônimo
contra a crueza
das paredes,
num labirinto
obsceno
de pêlos
e no mergulhar
de olhares
cínicos
e sedentos.Provamos
o gosto
e as súplicas
um do outro,
vertemos
carícias urgentes
enquanto
ganíamos
pelo futuro
dos pares,
famintos
tateamos
a culpa
e o látex
para descobrirmos
suados
e nús
o verdadeiro
sorriso
na boca
do homem.

amor "al dente"

com: Júlio Carvalhoa perfeita alquimia
do meu bem querer
bem te faz
pousar meu coração
à mesa
disposta entre pratos
e copos risíveis
do teu encanto maduro
ler apaixonado nos teus olhos
absorvido no teu respiro
como um canto
esperando
que me devores
extinguindo num gesto
o ontem
e as manchas rubras
na toalha de mesa
e os talheres
dispensados
entre os comes e bebes
a fome um do outro
antes antropofágicos
do que trágicos
consumidos
pelo suor das mãos
e o levantar das facas
tornozelos cruzados
tateando mapas
traços sutis
de sabores
indizíveis
o amor
provém
de indiscutíveis
paladares

Erotismo & Espuma

No caminhar
vacilante
e apressado
através
do cais
e das gentes
banhadas
pela febre
ardente
dos ventos
atlânticos
e da irreverência
lúgubre
do sorriso lunar
à meia-noite.No entre por
dos passos
emaranhados
de marinheiros
tropicais
iluminados
pela densidade
das coisas
terrenas
e bêbados
naufragados
num cruzar
de espadas
infinito.Transvirados
e estranhos
mediam-se
pelo peso
do prato
rachado
o lamento
úmido
por aquelas
outras naus
perdidas
no entardecer
das coisas.Clamavam
solenes
pelo dedilhar
de remos
eretos,
protestando
e uivando
ansiosos
pelo correr
momentâneo
das águas
salgadas
inundando
as frestas
ocas
do mundo.Hastearam
tuas bandeiras
trêmulas
à costas
lisas
e frágeis
pelo pavor
das ondas
ancoradas
pelo sal
e pela prece
à afrodite-do-mar,
suplicando
em reverência
ímpar
que o anjo
branco
e marinho
não se
desfaça
na espuma.

Chamamento, louvor & Poesia

Estou aquecido
entre
ás paredes
brancas
e implacáveis
do meu apartamento
de segundas
à domingos-infinitos
oferecendo
carícias
e poses
e chás
e tantas
outras doses
à minha solidão.Estou envelhecido,
branco
e estático
em meio
aos móveis,
passeio
desatento
ás distâncias
entre
o chuveiro
e o gotejar
incessante
das pias de cozinha.Estou esquecido
das praias
e campos
e montes,
esperando
de longe
que se cumpra
a profecia.
O romper
final
das cinzas
num lance
de tintas
e quimeras
ruidosas
sob minha janela.Ouço ao longe
uma intensa
melodia,
um sopro
de blues
sobrepondo
os carros velozes
nas noites
mornas
de quinta
à intermináveis
avenidas,
lisas,
enfeitadas
por luzes,
álcool
e (in)cansáveis magias.Ao longe,
ouço/sinto
o chamado,
orvalho
divino
entre
meus lábios,
entrego-me
solidário
ás cores
(e dores)
soltas
(loucas)
e imensas
do outroE assim,
a poesia
entrou
em
minha vida.

Elegias Marítimas ( voz & outras percepções)

https://youtu.be/xavDpKCHQdA

Cantos de morte.

Que segredos
contam
os lírios
amontoados
nas paredes?
sobre qual delírio
segredam
ás flores
em seus
vasos-túmulos
eternos
sem verão?O que contam
os mortos
no espaço
límbico
dos vivos?
Que histórias
contam
ás lágrimas
e o luto
a respeito
do indeterminado fim?
(se houver fim)A morte
é a ausência
última
dos que
ficam
e ficam
sós
a escarnecer
da luz
de um
outro dia
ou a beatificar
o morto
e o chão
que o sepulta.

Mapas, Trilhas & Fugas

Guardo
aqueles
pequenos
suspiros,
fragmentos
breves
e trêmulos
do desejo
incorpóreo,
fluindo
no rio
no sentido
contrário
à vida,
que planejamos
sozinhos,
traçando
rotas,
planos
e mapas
para dias
comuns,
perdidos
na cama
e no jazz
alucinado
das esquinas
de qualquer
bairro nobre
de madrugada,
aflitos,
no cair
das máscaras
e alagados
de uma
fome
voraz
do outro-inteiro,
que nos
consome
e some,
suspenso
na trama
nos ardis
do tempo
e da vida.

Desertos familiares

Escassez
total
e iminente
d'agua,
sangue
venoso
da terra,
fluídico
nos poros
abertos
de homens
deserto,
vazando
do corpo,
do olho,
o sal
imaculado,
presente
de Deus.E o sol?
Esse que
a visto
por sobre
frestas
fundas
nas agruras
do tempo?
Que ele
não se ponha
em minha
vida.

Ponto-cruz

No esbarrar
de olhos,
cruzados
no fio,
ponto-cruz
da vida
cotidiana,
tecendo
contos
breves,
histórias
anônimas,
urbanas,
perdidas,
no entre por
de carros
às onze
do lume
notívago
de uma
noite qualquer.

Manifesto ao Desejo

Eu quis acreditar
nas palavras
que você
não disse,
eu quis acreditar
no amor
prematuro
não vivido,
eu quis acreditar
na juventude
efêmera
e no tempo
reversível,
eu quis acreditar
no poema
nunca escrito
e no futuro
dos versos,
eu quis acreditar
na calmaria
após a tempestade,
eu quis acreditar
na verdade,
se houver
alguma verdade
para se crer,
eu quis acreditar
na imensidão
do universo
e na conjuntura total
dos astros solares,
eu quis acreditar
na presença
e em dias amenos,
eu quis acreditar
na beleza escondida
dos pequenos
gestos
e no espelho infinito
dos olhos,
eu quis acreditar
todos os dias
em você.

Descontínuo vendaval

Então será possível
que o tornado
passe
sobre tetos
tanto tempo
indulgentes,
enquanto
assobia
sua canção
fantasmagórica
entre cabelos
há muito envelhecidos
de mal tempo
e desamor?Lança
sobre mim
o vendaval
das coisas efêmeras
e líquidas,
como a chuva
que inunda
a casa,
o olho,
o ombro
tantas vezes
atingido,
tantas vezes
retesado,
qual o arco
profano
irmão gêmeo
do trovão.Aqui estou,
ó vórtice divino.
E tenho medo
e resisto.



Confissões Passageiras

Observo curioso
os passageiros
às janelas,
abertas
(ou não)
contemplando
a rua comprida
e enfeitada
pelo neon
gasto
dos bares
de quinta
à segundas
inteiras,
esperando,
quem sabe,
o convite
ao abraço
de braços
mais corajosos
e firmes,
que os arranque
intactos
de suas amenidades
contemplativas.Tirem-lhes
às vidraças
baças
deste transporte
medíocre
e circundante,
pois já
não move
ou comove
o corpo
do humano
posto
à teu lado.

Vias, estradas & emoções

Há nesta
miríade
cósmica
composta
quase
e exclusiva
de homens
longos
e brutos,
presos
à rochas
íngremes
como
arranha-céus
altivos
e negros
contra
o olho solar.Ainda hoje,
nesta era,
há a senda
secreta,
o trilho
e o trem
vacilante
em solitude
máxima,
dirigindo-se
com primor
desvairado
através
das curvas
e trilhas
e estradas
e abismos inteiros.Nômade!
Cigano
do tempo
em primazia,
caminhante
equilibrista
do fio
do tear
do fim da vida.

Fragmentos Cotidianos

O amor,
como
qualquer
outra
droga
ou
te da barato
ou
te frustra

Diálogos Urbanos

- moço, tudo bem?
- tudo
- pode me tirar uma dúvida?
- claro!
- onde me encontro?

Obscena epifânia

Maldito!
O anjo nú
e moreno
como
tantos
outros
tantos
que me atravessou
do peito
às tripas,
que consumiu
o berro
e a garganta
em chamas
lânguidas,
fogo-fátuo
dos mágicos,
picaretas
e contrabandistas escuros
munidos de flores
outras
nauseantes
do cheiro
doce
dos condenados,
esquálidos
nas esquinas
desertas,
ocas
e áridas
das
tuas asas
imensas,
serafim negro,
breu noturno,
espada na noite.Obscena epifânia - Vini Miranda.

Paixão;

Imagem

Anonimato & Paixão

Matando-te
todos
os dias
em excessos,
camas
e corpos
outros,
alheios
(desviantes)
e anônimos
de nossa
fina
trágica
loucura. Tocam-me
o cenho,
torso,
o ombro nu
desvelando-se
trêmulo
aos afagos
clandestinos
do enamoramento,
desfazendo
o nó
e o fel
do nosso
tempo. Olham-me
nos olhos
esses outros,
talvez
com certa
previdência
do sabor
amargo
que é
tua lembrança. ou Talvez
entendam,
aqui é
o poema.
E o próprio
corpo
do poeta
é poesia.

Força d'agua

Toca meu corpo
e eu viro água,
escorro livre
até seus lábios,
mesmo que me negues
a força d'agua
abre passagem.

Manifesto ao amor

Pela vida secreta dos garotos de olhos fixos virados inconsoláveis para baixo,
pelo temor púbere dos jovens viciados em exposição fácil e gratuita das redes sociais,
pelas pessoas bondosas e cívicas que civicamente atacam com ódio,
pelos moribundos nunca mortos, e por isso escondidos atrás das pontes, nas esquinas, bêbados e trêmulos e loucos da caridade pessoal,
pelos que morrem de amor, e morrem e choram e sobrevivem, e gastam no pente lágrimas ácidas de ácidos não batidos,
por mulheres lindas e negras, e lindas todas as mulheres que choram e sofrem e são oprimidas,
pelos homens que não sofrem, não choram e por isso são impedidos de sentir, embora sejam apegados às suas barbas,
pelos poetas apaixonados, e por serem poetas apaixonados, dão mais do que recebem, e recebem menos do que sentem,
pelo amor que pareça pouco, porque sempre é pouco o amor que percebemos, mas que seja maior que os prédios metropolitanos cheios de falsa segurança e seguranças com olhos atentos a nada,
pela ver…

Entre sombras

Onde
esteve
quando
os tigres
vieram?Onde
andava
enquanto
a noite
caia?Nas horas
longínquas
perdidas
na casa
e na espera.No fogo
intermitente,
incessante
de promessas
e ausências.Em flores
nunca vistas,
inseguras
de sua
fragrância.Onde caminha
e por quais campos
diminuta sombra?

Elegias marítimas

Arrasta-me
ao profundo
das águas,
repousa
meu corpo
marítimo
no leito
áspero
de tantos
outros
barcos
náufragados
em paixão.Recolhe,
nas conhas
e presentes
ás vozes
potentes
de ventos
soltos,
ainda
pouco
frementes
ao canto.Trôpego
de amor
ou maresia,
envolve-me
suplicante
em tuas
longas
ondas.Desmancha
meu lar
terrestre,
estica
o desejo
salgado
de peixes
multicoloridos
sobre
meus olhos,
trança
meu cabelo
com algas-marinhas
enquanto
me conduz,
sem pressa,
tranquilo,
aos
teus
braços
de mar.

Canto de Permanência

Aqui,
colado
a tua
doçura,
não
atrevo
a encarar-te,
sequer
vasculhar
teus olhos
profundos,
estalados
de tantas
noites
insones.Por medo,
admito,
de que
no instante
exato
do encontro
ocular,
tu
como
sopro etéreo
desapareça.

Homem-pássaro

Na luz,
todos
os
homens
comungam.Enquanto
é quente,
todos
os
homens
cantam
gentilmente.No estopim
do verão,
todos
os
homens
são aves.Na brisa,
toda
ave
é
feliz.ao longe.Solitária,
à ave
(noturna)
do
por vir
canta
baixinho:"Deus,
o
que
será
das
aves
quando
o
inverno
vier?"

Sol pro âmago

Não
tema
(trema)
pelo
frio
amargo
instalado
no
âmago
cavernoso
das
pessoas.É
quase
certo.Haverá
Sol.

Vapor Lunar

Evaporei
na
névoa
rala
entre
teus
olhos
castanhos,
Não
mais
existi,
fruto
do
teu fogo
às queimaduras,
tantas,
dispostas
em meu
dorso,
flor-sangrenta
noite sem luar.

Declaração dos confidenciados

Desaparecido,
na bruma
longa
dos dias
ocos,
vertiginosos,
pálidos,
esmaecidos
do teu
lábio
inflamado
em lábias
mortais
e infames
do
teu pouco
amor
Embora
ameaces
voar, alçar
nas asas
póstumas
dos anjos
grossos,
enrijecidos,
postos
ao canto,
tristes
de sua
falta
de mobilidade
Espero
que fique
nos
minutos
longos,
nas horas
doces,
exaustivas,
que dure
o
nosso
tempo,
mais
que o
escorrer
perdido
no vão
preto
das coisas
ocultas.
Ainda
que parta
às alturas
seguro
do vôo
longitudinal
que lhe
cabe,
crendo
no fecho,
a espera
esperança
da luz
que modifique
brevemente
em alento
quanto
dure
nossa
frágil
e móbil
felicidade.

Trecho de: (i)material

Imagem

Trecho de: Entre Lençóis

Imagem

(i) material

Beijo
de poeta
é beijo
de vento,
próprio
ciclone
dançando
solto
ao
corpo
e subindo
astronauta
às alturas. Trovão!
eis o corpo
imaterial
do poeta,
estrela-guia
o olho-vivo
intergaláctico
da possibilidade
sentimental.Tudo do poeta
é indecifrável,
menos
o que
sente,
e
sente
inflamado
e duvidoso
a quase
tudo,
principalmente,
ao
que
se
supõe
amor.

Entre lençóis

Ele nem via
ou
percebia,
nulo,
seguro
de sua
posição
entre
os lençóis,
tempestivo
feito
onda brava,
combatia
aos poucos,
milímetro
a milímetro
minha
presença.Ele não
sabia,
que
ao passo
que caminha
os dias,
passavam
também,
nossas línguas
úmidas
de um desejo
prematuro
e evidente.Que nestas
trilhas
todas
do corpo
onde
passearam
tuas
mãos
até
o
sem fim
do secreto
em mim,
eu me
entreguei.Todos
os dias
aos
teus beijos,
as semanas
incontáveis
em clamor,
a vida plena
do romantismo
ultrapassado.Eu me entreguei,
rendido
aos
afetos
que
inventei
para vocêE você nem via.

Elegia à Carolina

Carolina,
por que
te escondes
miuda,
se ainda
é quente
e fácil
teu
caminhar?Por que,
ainda
hoje,
não tira
com pressa
o véu
translúcido
que
te esconde
silenciosa
do mundo?Expõe-te
de novo,
valente,
lutadora
no jogo
e nas
disputas
tantas
de afeto.Mostra
o peito.
O olho.
O entorno
todo
colorido
repleto
de
amor.Vai,
gentilmente
e devora
o mundo.

Transcendente Universal

Olha-me
fundo,
adentro,
reconhece
o terreno
próspero
e fértil
(múltiplo)
de planos,
linhas
e rotas.Desbrava,
na altura
das curvas
minúsculas
dos poros,
a ânsia
mordaz
por
bravuras.Anseia,
aos cometas
e estrelas anãs,
macrocosmos
interligados
do átomo
mágico
universal.Passeia a via-láctea,
finda a tarde,
liberta
do corpo
às nossas
asas.

Espírito-liberdade

Ama-me
além
do
claustro
e das
algemas Queira-me
livre,
espirito
da natureza. Deseje-me
solto
voltando
aos
teus
braços Liberte-me
até
que eu possa
voar Vini Miranda/Julio Carvalho

Noite adentro

É madrugada
e me reparo
atento
aos
teus olhos
insones,
assustados,
suportando
sobre si
o peso
de outros
olhos
ainda
mais
generosos.Feito fonte,
verte
tua água
qual o néctar
soberano,
seiva,
leite
ou
saliva
dos
embriagados,
poucos,
quase
tolos,
pregados
às janelas.Diluídos
e náufragos
dos temporais
transversais,
ocasionais
do ópio
e do
álcool.É madrugada,
noite adentro
e você
também.

Retalhos

Quebra
a concha
humana,
faz
retalhos,
dos papéis
coloridos,
soltos,
(festins)
da lembrançaDesperta
a pérola
nova,
linda,
luminosa,
secreta
dos outros
postos
nas janelasEntrega
o doce,
da boca
peregrina
de campos
mais
douradosvastosO coração
do
homem

Trânsito

quero
parar
de lutar
contra o tempo
e insistir
no
agorao agora
é
passageiro
impaciente
comumente
localizado
entre
o pulo
e os
começosentre o pulo
e os
tropeçosrecomeços

com: Julio Carvalho

Doze

ande
atento
ao
tempoe onde
adentro
o tempo?qual luz?
tem caminho?
deixa rastro
o tempo?nos ponteiros
nos momentos
que aos poucos
vão
se
desfazendo(até
a gota
risonha
desprendida
é
tempo)

com: Julio Carvalho

Exílio

Imagem
Até quando esperará 
o deserto
áspero
e o exílio
da vontade?

Ilustração: Fabiana Reis


Fragmentos amorosos

Olha lá,
o sol
vem já,
aquecer
teu
corpo
amorVeja bem
o jardim
crescer
florido
novo
entãoLeve
beijo
agarrado
no
corpo
todo
interiorE que essa
poesia,
possa
te
encontrar,
amor.

Fragmentos Gelados

Antes que eu
me esqueça
ou
o frio
me arrebateSou
de peito
largo,
Inchado,
o fogo
que
tu ainda
Não sente.

Elegia do Eu

Caro leitor
atrás das vidraças,
não existo,
não possuo alma,
corpo,
membro,
olhos,
nada.Há apenas
palavras
meio-amargas
organizadas
em minha
não-existência.Escrevo
na esperança
de disfarçar
o descaso
e o cheiro
ácido
dos corpos
amontoados
sobre minha cama.No desejo
de ser liberto
do tempo,
inimigo
da flor
murcha
e doente
dos velhos.(já não somos jovens)Escrevo
estas palavras
fingidas
(ou não)
de afeto
para
esconder-me
pequeno
no negrume
oco
do peito
inerte.Caro leitor,
escrevo
na ilusão
de pertencer
aos teus olhos.Na ilusão
de ser
supostamente
amado
e existir,
vivo,
personagem
do teu sonho.

.

Imagem

Manifesto ao moço

Prende,
segura
estas
ondas,
soltas,
tantas
quais
cabelos,
loucos,
morenos,
grandes
de afetoToca,
sente
no corpo
presente
a altura
do nó
e do fogo,
das coisas
pequenas,
breves,
escondidas,
todas,
feito
gota
atrás
de olhos
verdes,
pequenos,
vestidos
de sol.Engole,
beija,
morde,
o caroço
bruto
de dores
e flores,
outras,
ansiosas
e trêmulas
por ti.Aceita
o encanto,
canto,
da boca
sedenta
do moço,
louco,
todo,
perdido
de amor.

Canção de exílio

Ainda
ontem
contavamos
suas
mentiras,
vestiamos
suas ideias,
morriamos
nos dias
todos
iguais
em frente
ao ócioAinda
ontem
teciamos
planos
mais
amenos
e sonhavamos
um sonho
mais vivo Ainda
ontem
supomos
o mundo
mais justo
e os corpos
mais quentes.
E o carcereiro
oculto
se revela,
É golpeDo amanhã,
que
não seja
doce
nem
apático,
pois
não
morreremos
no vão
nem na lutaResistimos.Resistimos,
o negro,
o gay,
a mulher,
o bom homem,
o humano
e para sempre
nossa dama
liberdade.

Fera

Afundemos
a fera,
aquela
outra
que
desfila
tua pele
limpa
e ornada
da pérola
alva
da
decênciaconveniente,
sonha
teu
sonho
umedece
teu
olho
entrelaça
o corpo
ao
corpo
do novoA fera
toda
ela
nossa
de
dentro

Cântico Noturno

Carnívoro
espírito
do desejo,
clamo-te
hoje
e além,
vem,
feroz
e disposto,
a dispor
do rastro,
a saliva
satânica
do encontro.Anuncia
o jogo
diabólico
dos corpos,
o embaraço,
ritmado
da dança profana
do gozo
e da seiva.Suor esplêndido
de vigor
e urgências,
braços,
coxas,
tetas,
tuas
por reverênciaRogo
pequeno devorador
que não me deixes
hoje
e nunca.

Homens raros

Aos homens
poucos
e parcos
do nosso tempo.
Na altura
das asas,
Ícaros-ao-sol
Trêmulos,
Supostos
sonhadores,
Ingênuos
da fome
que em mim
se adivinha.Aos homens,
tantos
e todos
que amei,
repartidos
do pão
e do corpo,
do gozo
cru por sobre
nenhum
outro
reverso de mimAos homens
dos sonhos
e da miragem,
persona mítica
do encanto,
doação ilimitada
do afeto gratuito
e passageiroAos belos homens
em seus fortes
e torres
meninos
por nascer.Aos nossos homens
Homens raros.

Sonho Pálido

O sonho,
embora
doce,
quando
demasiado
fútil
e pálido,
mendigo
do desejo
do Outro.Mais
nos entorta,
cenho
centro
e plexo,
Inóspito
e áspero
os venenos
todos
do tédionos corrompe
aos poucos,
fundo,
dentro
do
âmago.

Florescer

Florescíamos
tanto,
todos
os Outros
em nós.

Efêmero

Nossas paixões
já não serão
passageiras,
estrangeiras
de um outro
tempo.Nem o toque
nem o gosto.
O olho nú
por sobre o outroNada mais
Será
Efêmero.

Balada do encontro

De certo
Existe um "Eu"
próprio
nesse
nosso
desarranjo.Um limbo
todo
pronto
de ausências
e encontros.Entre
nossas línguas
e idiomas
O lugar-comum
dos acordos.O fato, ó flor
é que há
dentre nós
um espaço novo.
Pertencente
aos embaraços
nossos,
costumeiros
ou não.E de pronto
quase
por descuido
pouso
secretamente
onde me negasEvidenciando
o equívoco
de saber de ti
Apenas
o que me oferta.Então me negas
e talvez
ainda hojete encontre mais.

Messalina

Rasga-me
homem,
carne
e sexo.
Passeia
as trilhas
descampadas
do desejo ardente
e sujo.
Espreita
com teus
lábios
sábios,
o templo
às minhas coxas.

Devora-me
no canto
no teto
entre as frestas,
sob os muros
e eras.
Gorjeias teu som
de fera
e se apressa
a arrancar
trêmulo
o fôlego,
sopro
e chama.

Incendeia-te
Bruto singelo
pequena morte
consome de nós
os restos tortos
e doces
de outro tempo
mais ameno.

Mastiga-me
Posto, o seio
que o alimenta.
Messalina tua
a prover-te
leite
gozo
e permanência.

Visto que só
se adivinha tua
a cavalgada.
Os incêndios
todos
Intrépidos
de lava

Por ora,
Benfazejo homem
do teu corpo
escrava.


Canto aos Mortos.

teciam, os mortos.
Contos
e mortalhas.
segredando à noite
e ao tempo
ao homem-vivo
de presença.
Estendendo ao acaso
apertos
e passos. cingindo no homem
o semblante.
Amante de pássaros,
posto que voa
e flutua.
Perene ainda
ao teu canto Canto nosso.
Canto de pátria
se é como chamas
tua terra
prata límpida
e saudade. Estrondoso
o grito
agúdo
perdido do verso Desvelando no vento
peito
sofrego
chamamento
ao amigo.

Viagem ao mundo

Ainda
Por hoje
Estende-te
longos
os braços.
E abraços
cálidos
De súbita radiância.
luz nova.Apressa-te
e parte.
Cruza as pontes.
Detêm os monstros.
Devora o osso.
Consome o corpo,
o veneno.
Seiva do outro.E volta.Peito é casa.
Morada.
fortaleza.
monumento
Íntimo
e branco
perolado.
Branco
como aqueles
que vertes
aos baldes
de óleo
e lágrima.Apequena
e diminuí.
Demora-te,
nas curvas
e cabelos
pelos
Soltos
Fragmentos de estrada.
Na boca
Escancarada
Paisagem
Iluminada de nós.E volta.

.

Vem. Transpõe os muros.

.

Imagem
Deita-te curiosa Alice
Move-te para dentro. Para o bem mais.



LINEKER - Leite (vers. oficial)

Imagem

Diálogos soltos

- Tudo bem?
- Não, tô com um dor de viver do caralho.
- Dor?
- É, aquele vazio branco e sem fim
- Entendo
- Pois é

Azul

De um estranhíssimo azul do nosso tempo
e um corpo quente.

Imperativo Oceânico

Humilde chuva
invejo-te, cantam os postes
úmidos
de sua aparente liberdade.
Chorando, meio tortos
por sobre as casas,
estas, ainda mais tortas
em amorfas bandeiras.

Suave sereno
obsceno
(e ameno)
onde contam os mortos
e os vivos
e os quase vivos
e quase todos tão sós
de plenitude

Imensos, os raios
que rasgam ferozes
atrozes
impávidos
tremendo em teus lábios

E tu
torrente universal
tornaste
seiva
e sumo
e lago.

Legitimo, imperativo.
Oceânico.

Ensaio sobre a chuva

Há no outro,
no grande Outro,
algo de indesculpável.
indivisível de nós mesmos.
Como quando se cruza 
uma tempestade,
e subitamente
todos os ossos se sacodem.
Osso é íntimo,
intrínseco
(e só) A pele formiga
se eriça
onde medem-se os traços
rabiscando rotas
nos pelos
planos,
fugas.
é função dos olhos
mareados
que
veem antes de tudo
o dever de revelar-se
Fragilizar-se para existir O sol sai
(é sua natureza) mas és tu,
todo feito de relâmpago
e ventania
sopro transatlântico
geométrico
geográfico és tu o Outro
a desvelar-se só
ao mundo
(ao mundo todo
e ao vento)